Acabo de fazer prova, ainda falta uma hora para receber a próxima. Inquieto, resolvi não perder tempo, pois tinha virado a noite e tinha que dormir ao máximo até o próximo compromisso daqui poucas horas. Pego os ônibus e vou até uma locadora deixar um dvd. Chegando lá, levando chuva descubra que ainda falta uma hora para a locadora abrir. "Ô m****.".
Ali perto uma cafeteria, me chamando para comparecer. Não qualquer cafeteria, mas aquela onde tinha um pão de queijo especial, que eu comia no auge dos meus 6 anos. O gosto nostalgico daquele pão sempre me leva para um tempo onde nada se explicava, tudo era mágico. Bom, você sabe o que é ter seis anos.
Sentado numa mesa perto da janela, eu via a chuva cair pela rua, numa simplicidade que até mesmo um cego como eu pude perceber. Os pingos caiam sem violência. Não batiam, se uniam ao chão, aos carros. No meu olhar tudo acontecia tão devargar, e sem nenhum som. O mais perfeito clichê de câmera lenta. Esqueci das provas, trabalhos, da aula que eu estava matando por causa de uma locadora que nem tinha aberto ainda. Eu que fui para aquela cafeteria para me refugiar da chuva, agora era o seu mais ardoroso espectador. Ela parecia saber disso, pois não se alterou enquanto eu pude admirar.
Aquela cafeteria, tão bem decorada com tons de marrom e bege, silenciosa e espaçosa, destoava demais com o resto da cidade. Ali eu me sentia num café em NY, Paris, Santiago, Londres, Barcelona... Tanto faz, o sentimento com certeza seria o mesmo. É um pequeno recanto do paraíso, em meio uma cidade de favelas, onde pessoas como nós, de uma classe afortunada, podemos recobrar as forças para voltar ao inferno e continuar a tentar melhorá-lo. Vendo o menino pedindo esmola no sinal é quase como se alguém viesse me cututar e dizer: "Agora que você já descansou volte a lutar". É um descanso cheio de cumplicidade mesmo, em meio ao crime do sofrimento de tantas pessoas que não estamos fazemos nada para ajudar. Lembrei das cidades no interior completamente imundadas. Fiquei muito triste. Percebi como tinha sido bom esquecer de tudo aquilo. O esquecimento é uma benção mesmo, só mesmo naquele momento, olhando para a chuva eu tinha sentido paz. Pensei em reencarnação, como ela seria inútil sem o total esquecimento do passado. Certamente existiam muitas coisas que seriam capazes de destruir uma vida se continuassemos a focarmos nelas, por mais eternas que estas vidas fossem.
Tive vontade de tirar o meu caderno e começar a escrever tudo isso, mas fiquei com vergonha, como se já não bastasse eu estar lá "teoricamente" mal vestido para os padrões daquele lugar, ainda tiraria um caderno no meio de todos aqueles notebooks. "Paulo, vais viver pela metade se ficar se importando com o que os outros pensam. O que eles fazem por você?" raciocinei. Mesmo assim nada fiz, é algo que ainda estou treinando. E depois, a chuva continuava ali e eu queria continuar com aquele sentimento de paz... depois eu tento consertar os meus defeitos. Pensei no meu último post e nos comentários que recebi. Pensei em escrever algo com a frase "me ensine a sorrir" como resposta. Mas hoje não. Hoje eu tinha percebido a chuva no meio de uma situação bem chata. Pensei na influência das pessoas que conheci no meio disso tudo.. elas já estavam me ensinando. Não digo que já sei, ou que amanhã conseguirei perceber a mesma chuva, mas hoje eu não preciso que me ensinem. Hoje não. Hoje a chuva me ensinou.
Um comentário:
putz, as chuvas...
teu texto me deu uma saudade dos meus seis anos, viu...
e deveria ter tirado a folha de caderno sim, imagina eu uma descabelada que só anda de havaiana suja e roupas descombinando ainda pego um papel no meio da sala e começo a escrever do nada, poisé me passo por altista sempre, mas é tão bom!
lindo o texto !
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