sábado, 24 de maio de 2008

Santa Catarina chega aos 32°C

Ontem em Florianópolis a temperatura chegou a 32°C, o que claramente mostra que as ondas de calor no sul estão mais quentes do que antigamente. É preciso tomar medidas para combater o efeito estufa em todo o mundo. Dito isto, aqui está a foto tirada de uma das praias de SC ontem:

Imagem do site Terra Notícias

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Para não esquecer

Foto de Liu Zhongjun
Sexta-feira, 16 de maio de 2008, fotografia distribuída pela agência chinesa oficial de notícias Xinhua, mostra a mão de uma estudante morta segurando uma caneta firmemente no local de destroços da escola secundária Dongqi, na cidade de Hanwang em Mianzhu City, ao sudoeste da China na província de Sichuan.

Corpos Christi?

Imagem de Ricardo Nogueira/Folha Imagem
Pessoas durante montagem de tapete para o Corpus Christi em Santana de Parnaíba (SP) - UOL Notícias

É incrível como em um dos dias mais religiosos do mundo, pessoas de todo o mundo reúnem-se para fechar os olhos e glorificar a imagem do último defunto, segundo eles. Sim porque como Jesus salvou todo mundo, parece que não tem mais ninguém precisando de ajuda ou morrendo prematuramente.

Sim, vamos louvar a imagem do cordeiro ostentando luxos, contruindo vaidades e esquecer dos que passam fome. Não importa quantos estejam com frio e não tenham onde cair morto, desde que em um pedacinho de terra tenha um tapete bem bonito.

A imagem mais cristã que eu vi foi de um país nem tão cristão assim.

Foto de Oded Balilty/AP
Sobrevivente do terremoto carrega criança enquanto caminha por abrigo provisório montado em Yinghua, na província de Sichuan. - UOL Notícias

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Faroeste Caboclo nas Filipinas

Notícia recém saída do mundo:
Imagem e fatos retirados do Terra/Reuters
Filipinas - 7h35 - Estudante dá uma voadora em barreira de escudos da polícia durante protesto contra o plano do governo de aumentar o preço dos combustíveis, em frente ao palácio presidencial, em Jacarta.

Ok, essa foto me chocou por vários motivos, mas como diria Jack, o estripador, e metade das pessoas que não conseguem criar a sua própria piada: vamos por partes.

Vou começar pela primeira palavra: "Estudante ...". Tá, estudante de quê? Eu não sei como o tempo passa nas Filipinas, mas no Brasil esse homem teria 53 anos. Ele deve estar fazendo um desses programas de alfabetização da terceira idade, e a imprensa coloca ele como estudante para dar a entender que é um movimento universitário, o que das últimas décadas pra cá têm se tornado uma coisa bem rara.

"... dá uma voadora em barreira de escudos ...". Notem aí como um simples cidadão filipense é capaz de dar uma voadora no estilo louva-Deus capaz de amassar um escudo a prova de bala da tropa de choque da polícia. Escutem o que eu digo: todos os asiáticos são perigosos. Todos.

"... durante protesto contra o plano do governo de aumentar o preço dos combustíveis, em frente ao palácio presidencial, em Jacarta.". Eu não sei se vocês perceberam, mas o pataxó lá tá sozinho. O cara tá protestando sozinho! Enfrentando sozinho aquele esquadrão! Nas Filipinas todo mundo lá deve ter muito medo dele.

Tudo isso aconteceu porque ele ficou sabendo desse novo aumento do preço da gasolina e ficou muito indignado com isso. E ouvia às sete horas o noticiário que sempre dizia que o seu presidente ia ajudar. Mas ele não queria mais conversa e decidiu que com o presidente ele iria conversar.

Pela quantidade de repórters, fotógrafos e esquadrão anti-choque, o "estudante" parece ter desafiado o presidente ao estilo João Santo Cristo: "O filho do Chuck Norris era só ódio por dentro e então o Presidente prum duelo ele chamou / Daqui a pouco vou estar em Jacarta, em frente ao palácio presidencial, é pra lá que eu vou / E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor.".

"Na quarta-feira então, às 7h35, todo o povo
Sem demora foi lá só para assistir
Um homem que dava voadora em escudos e acertou o tropa de choque.
Começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
Ele olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.

"E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui."

Enfim, no final das contas: tudo que ele queria era falar pro presidente, pra ajudar toda essa gente que só faz... sofrer!!!




terça-feira, 20 de maio de 2008

A música dos valores perdidos

Como meu primeiro post, decidi publicar um artigo genialmente escrito pelo jornalista (na mais sublime concepção do termo) José Teles. Não preciso escrever sobre a enorme importância deste homem no jornalismo brasileiro, pois isso transparece no texto dele que coloco aqui embaixo.


Copiado do Jornal do Commercio

Toques digitais
A música dos valores perdidos
Publicado em 06.05.2008, às 08h47

Foto: Divulgação
JOSÉ TELES é crítico musical do Jornal do Commercio

'Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta a mão.

Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhando uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de 'forró', e Ariano exclamou: 'Eita que é pior do que eu pensava'. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou.

Pruma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta 'desculhambação' não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético,. Pior, o glamur, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

A cantora Ceca foi uma espécie de Ivete Sangalo do turbo folk (ainda está na estada, porém com menor sucesso). Foram comprados 100 mil vídeos do seu casamento com Arkan, mafioso e líder de grupo para-militares na Croácia e Bósnia. Arkan foi assassinado em 2000. Ceca presa em 2003. Ela não foi a única envolvida com a polícia, depois da queda de Milosevic, muitos dos ídolos do turbo folk envolveram-se com a justa pelo envolvimento com a poderosa máfia de Belgrado.

A temática da turbo folk era sexo, nacionalismo e drogas. Lukas, o maior ídolo masculino do turbo folk pregava em sua música o uso da cocaína. Um dos seus maiores hits chama-se White (a cor do pó, se é que alguém ignora), e ele, segundo o Guardian, costumava afirmar: 'Se cocaína é uma droga, pode me chamar de viciado'. Esteticamente, além da pouca roupa, a sanfona é o instrumento que se destaca tanto no turbo folk quanto no chamado forró eletrônico, instrumento decorativo, ali muito mais para lembrar das raízes da música tradicional. Ressaltando-se que não se tem notícia de ligação entre bandas de 'forró' e crime organizado. No que elas são iguaizinhas é que proliferaram em meio a débâcle de valores estéticos, morais, e éticos, e despolitização da juventude. Com a volta da governabilidade nas repúblicas da antiga Iugoslávia, o turbo folk perdeu a força, vende ainda porém muito menos do que no passado, hoje é apenas uma música popular para se dançar, e não a trilha sonora de um regime condenado por, entre outras lástimas, genocídio.

Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.


JOSÉ TELES
Como quase todo pernambucano, nasceu na Paraíba (Campina Grande) Começou no jornalismo, em 1980, no extinto Correio de Pernambuco, onde passou apenas três meses, vindo em seguida para o Jornal do Commércio. Foi repórter esportivo até 1984. Depois de um tempo fora da grande imprensa, escrevendo no Pasquim, no jornal de humor O Papa-Figo (fundado por ele, Ral e Bione em 1984), voltou ao JC em 1987, como crítico musical, função que exerce até hoje. Em 1992, passou a escrever uma cronica semanal, na coluna Curto & Grosso, Teles também é escritor.