segunda-feira, 22 de junho de 2009

O que posso fazer? É a verdade.

   Roberto acordou na cama de outra... que outra? Não sabe. Mas era linda.
   - Tenho que ir.
   Levantou-se e começou a se arrumar.
   - Por quê? – perguntou a outra.
   - Tenho uma reunião para ir agora.
   - Isso não é muito clichê?
   - O que posso fazer? É a verdade. Você sabe que eu sou um homem de negócios. Meus horários quem fazem são meus clientes.
    Mentira. Terminou de se arrumar rapidamente e foi.
   No caminho parou em um sinal vermelho, com vista para um outdoor com uma propaganda de perfume. Era uma foto de uma mulher de costas, olhando fixamente para a câmera através de um espelho numa penteadeira. Roberto conhecia aquela mulher e conhecia aquela pose. Era mesma pose com que ela havia olhado para ele numa manhã seguinte.
   Quando Roberto lembrava-se dela, a primeira coisa que lhe vinha à mente era de um sorvete maravilhoso, mas que saiu de fabricação. Sequer teve a chance de enjoar dela.
   Era típico dela olhar para um espelho. Num ato de auto-admiração, ela olha para si. Num outro, ela observa quem a olha. Se faz de indiferente observando tudo. Olha para trás sem parar de dar as costas. Olhar para um espelho para ela é uma filosofia de vida.
   - Tenho que ir. – disse ela.
   - Já?
   - Tenho uma apresentação para fazer agora.
   - Às nove da manhã? Você não tem uma desculpa melhor não?
   - O que posso fazer? É a verdade. Não sou eu que faço meus horários. São meus clientes.
   Riu-se de como agora usava a mesma desculpa para ir embora. É verdade que nunca mais experimentou aquele sabor. Para experimentá-lo de novo, tentava ser o sabor. Tentava agir como ela, ver como ela, sentir como ela, se aproximar dela. Saber o que a faz de tão especial. Quem sabe assim esse sabor perderia o encanto e ele poderia passar para outro. Quem sabe o próprio Roberto não se tornaria mais interessante de ser degustado em outras bocas.

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