Odeio falar sobre suicídio. Odeio com falar com gente que quer cometer suicídio. Sempre me acho um hipócrita tentando defender a vida, quando eu mesmo não sinto o valor que ela tem.
Muitas pessoas, como eu, não têm grandes problemas. Não passam fome, não são aleijados, possuem um teto e bastante tempo livre para pensar até em qual é o sentido em continuar vivendo. E do nada, sem que ninguém desconfie, sem ter nunca terem feito uma cara de tristeza para alguém, suicidam-se. Ninguém entende. "Estátuas e cofres. E paredes pintadas. Ninguém sabe o que aconteceu.". Uma vida tão cheia de expectativas, oportunidades que outros tantos rezam pra ter, jogada fora. É porque realmente, as pessoas do lado de fora não entendem...
A maioria das pessoas (mas bem menos do que se imagina) quer viver pra poder conseguir terminar aquele curso, conseguir aquele trabalho, comprar aquele carro. Depois conseguir um trabalho melhor, trocar de casa, fazer aquela viagem e trocar o carro. Depois fazer cursos, fazer novas viagens, escrever um livro e talvez, ter uma família. E assim vai... Mas quando uma pessoa percebe a rotina em tudo isso, que um carro novo é só um carro novo, uma casa nova é só uma casa nova, uma viagem é só uma viagem, ver como tudo isso é repetitivo e sem sentido. A mídia tem por objetivo consumista de colocar na nossa cabeça que nunca estamos satisfeitos, não importa o quanto você tenha: Nunca é o suficiente porque sempre se pode ter mais/ sempre se pode ser mais feliz. Algumas pessoas enxergam isso a longo prazo, fora as decepções eventuais com algumas pessoas em nossas vidas e o risco/paralelo entre quanto mais você gosta de alguém, mais vai lhe machucar quando ela lhe decepcionar (e ela vai lhe decepcionar, porque não há ser humano que não erre, nem que consiga preencher as expectativas de alguém): essas pessoas são chamadas de depressivas e são atraídas ao suícidio.
Pessoas assim são mais humanas do que as outras, porque são tão sensíveis ao que acontece consigo e com as pessoas seu redor que conseguem perceber que tudo está errado. Claramente o mundo está uma droga, e as pessoas depressivas enxergam isso com maior clareza. É justamente por isso que elas são tão importantes: só elas vão sofrer tanto até o ponto em que vão querer mudar. Só elas vão ver que está tudo errado e vão querer mudar... pessoas normais seguem o rumo, fazendo algumas mudanças apenas quando é conveniente e se não for difícil, senão deixa como está.
O filme do Patch Adams, baseado em uma história real, retrata a história de um cara que tentou se matar várias vezes, não tinha dinheiro, casa, amigos, trocava de emprego sempre, órfão, terminou se internando num hospício. Lá ele percebeu como poderia ajudar pessoas depressivas como ele. Decidiu ser médico para conhecer e ajudar as pessoas nos seus momentos mais difícieis. Então, um cara que tinha mais de 40 anos, fez vestibular e entrou pra medicina. Comprou briga com os colegas porque ele agia como palhaço nos anos 60, e todo mundo queria ser respeitado como médico. Foi até expulso da faculdade com a justificativa de ser "excessivamente feliz". O que eu quero dizer é ele tinha mais de 40 quando decidiu começar a viver, e ainda conseguiu ser feliz. E aquela constante vontade que ele tinha de se matar, na verdade era repúdio a toda forma de sofrimento. Ele era super sensível quanto a isso e por isso sofria demais.
Suicídas, o mundo precisa de vocês. Só vocês vêem o mundo como ele está. Só vocês vêem as mudanças que precisam ocorrer. Só vocês sabem que não é um carro, uma faculdade, dinheiro, saúde, sexo, fama que vai fazer vocês pararem de sofrer, que vai fazer alguém feliz. Precisamos muito de vocês...
Como podem ajudar? Ajudando outras pessoas, com problemas menores ou maiores do que os seus. Aquelas com problemas menores, vocês podem contar suas histórias e mandar se fuderem se eles ainda acham que têm problemas. Aquelas pessoas com problemas maiores, vocês podem ajudar tornando a vida deles menos horrível, seja apenas escutando. Suicídas sabem que o pior momento do sofrimento é quando estão sozinhos, sem amigos. Ajudem outras pessoas, porque a vida de vocês não vai melhorar mesmo, senão vocês não seriam suicídas, mas pelo menos você pode dizer depois que faz diferença no mundo, e é nisso que está o sentido da vida. Viver por viver não é droga nenhuma. Agora, trabalhar com algo que traz recompensa, fazendo novos amigos e ainda com um monte de pessoas gratas por você existir... isso sim dá vontade de viver. Que se foda o novo carro da mitsubishi, eu quero é ser feliz.
Espaços com trabalhos voluntários existem. Eu já frequentei dois: um hospital na área infantil, dos brinquedos, e um asilo de idosos. E tipo, você chega lá, depois de ter quase ou virado a noite de tanta depressão e insônia, e chega uma criança te olhando como se você fosse um herói: um adulto querendo brincar com ela. Ou então no asilo, que os velhos te olham admirando por ver um jovem se importando com os velhos, que nem são da sua família, coisa que os próprios filhos e netos não fazem, largando eles lá, como um estorvo, exatamente como você se sentia antes de chegar lá, um estorvo pro mundo. E eles contam histórias, você empurra cadeira de rodas pra levar eles pros cantos... uns puxam conversa, tentam fazer você se interessar por eles, se agarram a primeira chance de companhia que eles têm pra conversar... você se sente necessário ali.
Espero que a minha experiência e minhas palavras tenham ajudado. Só escrevo o que acredito ser verdade. Não defendi o valor da vida. Defendi o valor dos suicídas que ainda não morreram.
Nenhum comentário:
Postar um comentário